Prevista a inclinação
o som da aterragem
na arte de não voar:
o código

a prolongar o abrir de todos os olhos
enrolado à sua curvatura
sem nunca lhes tocar
(em pauta
antes de se tornar liquida
a música)

repete este encantamento
enquanto os olhos não se lembram
e reinicia
sempre que isso acontece

a cada ciclo repetido
abandonada a humaníssima  gente
a uma só escala
entre uma estrela
e o constelar da ideia dela
de infinito na boca
para enfrentar os deuses

a arte de não voar
também a arte de fascínio
(de pavão)

não ansiaríamos uma eternidade vazia
se ela não se pavoneasse tanto à nossa frente:

Retirei então o som ao mundo devagar
coloquei a terra um pouco mais à direita
(em girassol
antes de se querer virar)
no silencio que antecede
movimentos futuros

alguns ciclos cansados
desenrolaram-se ao sol
e o ritmo duplo
em sinal:

dois corações a bater no mesmo corpo

apenas aí
a chamada
sem aviso sem som
a um voo previsto sem mim











O teu rosto torna-se periódico às vezes
e persiste 
em oráculo 
a querer saber do meu
e dessa certa quantidade de gente à procura de gente:


É um enlace nos olhos dos bichos
uma energia claríssima
um fogo em artificio de espelhos 
com tendência para rios 

a cobrir devagar,
atrás de cada passo
acordando cada mão que se espreguice ao sol
transparente a cada mão, tão liquida 
(como a música 
mas menos horizontal)
e no entanto move-se 
como se ainda na sombra de uma luz que nos amedronta

e vai levando gente 
para a clareira mais provável
ao nível das nuvens dos átomos 
quando ainda se tocavam

alinha olhares inteiros de bicho
na inclinação certa de se imitarem 

é uma energia claríssima que depois se vem a saber 


                                                                                                                                       

Em cuidado de vós
não vos debruceis nessa varanda
que é pouco segura a cascata de ferro 
a tremer até ao Douro

olhai bem este sítios queridos
vede-os com derradeiro olhar
em copas de tormento tomai
o que de chão vos restar
que nesta rua não há baloiço
que não vos lance em alto mar

cinco janelas, cinco cavaleiros 
a cavalo em gaivotas que relincham
levam esta carta à minha infância 
e todos espreitam na rua
o candor que nela vai bordado:
o teu olhar de baloiço à janela
que outrora embalava a cidade ao meu lado

aqui regresso 
em vela caída que chama
a fruta demasiado doce à mercearia
e ao rio a verdade que resvala na rua
segura em aperto de mãos 
entre bons dias e passadas suspensas à noite
como o violino de uma criança
que vencesse o carrilhão dos Clérigos
ou o Outono que abandonaste
debruçado em mim até ao mar

em cuidado de vós
não quereis ser desta rua sem o serdes
que não há verdes em equilíbrio
que aqui não tombem 
em murmúrio de nevoeiro quando há luar

por aqui passai de um verso a outro
como um soldado de chumbo
sem hesitar, cantai aos cavaleiros
e bailai com as gaivotas sobre o gelo
mas não pouseis, visitante, com elas
que asas não vos chegarão para levantar

a mim deixai-me quieta
que o tempo agora é este:
uma rua inclinada para as tuas mãos
        

(Virtudes)
                                      





trago-o na vibração inquieta da matéria sem vontade
finjo não ouvir o trabalhar 
de operários de amor
o badalar crescente 
navio de espelhos que pulsa em ombros lançado 

devo ignorar a luz que abandona os sinos ao entardecer 
imperturbáveis, e a mim não,
vem assistir a este pulsar
vaidosa ao espelho 
entre sinapse e quase ar

devo ignorar noites de cidades gravadas nos pulsos 
ser navio que cavalga
e ter milhares de portos para descarregar o mundo
cantar mais alto que a matéria sem vontade
soprar devagar onde escureça
e deixar que a luz oscile em cada olhar cruzado
sem o querer descruzar
devo ser feliz à desgarrada 
operário de um só pulsar
e não denunciar os sinos










um trompete dança-me agora a medo
sopros abertos por dentro
erguem-me os braços e bailam para longe
é exacta a saudade entre os meus braços 
e as pernas calçadas de margens sem mim
sei das paisagens mas entre as minhas pernas e o horizonte
sempre houve danças que não entendo
prefiro a superfície da música 
sem direcção, um gesto em vez de um passo,
o movimento das pernas não pode escrever-te num quarto escuro, 
só mãos a abrir um corpo 
sem pernas o amor é de braços longos capazes de calar a linguagem das árvores
quando já só existe um vento fino ao piano,
os braços não caem 
e um movimento de alegria tem que ondular pelo corpo acima
seguro, quando rodas
os teus braços levantam um pólen tão ordenado como o das abelhas
que recolho nos meus 
e se os vires desvanecer em direcção pouco certa
nesse instante diz-me adeus, como se só as pernas me tivessem partido,
tem cuidado meu amor com a inveja que as palavras têm dos braços
um gesto ouve-se menos que um passo
e o nosso abraço roda sem atrito
vês, como se ergue ligeiramente  
e vai dispersando a terra que lhe cai em cima
os teus braços não são teus 
são duas rezas minhas 

No místico [...] começa por operar-se um estreitamento da consciência do mundo exterior, compensado por acrescento intensivo do campo da consciência do mundo interior.
Manuel Laranjeira
A doença da Santidade
proporções óbvias 
entre o místico e o louco
se a regra é a de proporcionalidade então essa é a verdade, o místico é proporcional ao óbvio e o óbvio ao louco, o que não é proporcional não existe.
uma linha vertical desenhada a meio do olho, em frente o olhar óbvio, subindo e descendo a linha, o místico e o louco, incapacitando o caminhar.
o louco corre para dentro, o místico corre para fora, deixando assim o óbvio calmamente no início.
uma nova teoria despede-se da velha com um aperto de mão e seguem em sentidos contrários. o louco e o místico despedem-se com as mãos do mesmo corpo e seguem em cruz.
o místico escreveu uma longa carta ao louco a explicar-lhe que não está sozinho, o louco respondeu, com um pequeno poema, a explicar ao místico que não está acompanhado.
o óbvio pode ter medo. as coisas óbvias podem ter medo e disfarçar para não nos assustarem. os planetas podem ter medo. e se a realidade tem medo de nós - os átomos são mais loucos e místicos que óbvios.
o louco dança com arcos de óbvios à cintura. o erro dança com arcos de loucos à cintura. o óbvio dança com arcos de erros à cintura. a música que ouvem é a mesma. não é mística, nem louca, nem óbvia.
o místico e o louco acreditam que é óbvio acreditar. o óbvio acredita que é místico e louco acreditar. acreditam.
o louco segue a dança das peças, o místico os quadrados pretos e brancos do tabuleiro, o óbvio as regras. ninguém ganhou ainda.
a lágrima do louco é abandonada à saída, a do místico é lançada para cima e a do óbvio é disparada em frente. as lágrimas demoram o mesmo tempo a chegar ao chão.
o místico não utiliza ferramentas, por falta de curiosidade, o louco não distingue as ferramentas da curiosidade, o óbvio utiliza como ferramenta a curiosidade, que repete até à exaustão do material.
o louco tem asas, o místico tem asas, o óbvio pode voar.

talvez os polegares não desviem as águas
dobradas pelas raízes 
em conversas a fio
pensava nela a regressar das raízes pelas mãos
de como se lembra de toda a água que já foi
e se ouve ainda o fechar da maré 
em cada rotação dos seus olhos
ouvia repetidamente
divide a luz se te atreves
e talvez aí a sombra
cada célula 
grávida de um segredo:
não espero da água 
o que espero de mim
que no código de vez em quando 
tenha sobrado um verso:
pode levar-se uma pergunta ao infinito
ou dar-lhe um beijo

sobe a custo um corpo 
na minha rua
a acrescentar curva à luz
só assim sabe que é corpo 
com ele cruza-se um cesto vazio à cabeça 
de peso igual ao corpo que sobe
e é este o único cruzamento
ao fundo da rua 
o gesto curva um pouco mais
ao pousar do cesto
entre o batimento de pernas e asas 
que passam e nunca se cruzam
o infinitésimo pousar
de morar
daqui são dois pés
de substâncias amedrontadas
seguem-se de pequenos
não de sustentarem agudos das gaivotas
a chamar a sombra dos chapéus antigos
às mesmas paredes
mais o quê
não há mais água
a água lembra-se de toda a água que já foi
até voltar a ser-nos
(ouvi o mar ter conversas estranhas com a água dentro de mim
à janela redonda do décimo andar de um navio)
estou envolvida com outra coisa
se é um bicho sozinho no universo
no instante de uma cereja
a imaginar
para passar de me cair
(nem vazios que saibam coser)
caio-me mais do que me quero
onde só precisávamos de ver o chão
muito antes do tempo de dois pés

só uma onda que ri

só uma onda aos ritmos


podia ser água

e a certeza com que se espalha,

o resto

(palavras em poços

a reflectir

circunferências na superfície)

o resto

tende a magoar


quando rodas sobre ti

a velocidade não serve de nada

o vento é só teu

os extremos a tua curvatura

e o sopro do poço vem devagar


deixar duas dimensões à solta de não saber

não deslizar pelas lâminas circulares

entre uma e outra ir saltando

sem violino

ao ritmo de ecos


se o cérebro é maior que o mundo

que o segundo não caiba no primeiro

não se cria energia quando tremo

pela rotação de uma palavra


rir contigo

nos teus modos de ondulação

montar um touro azul e entrar pelo poço ao vento

que não se afaste assim a matéria com medo do escuro

(às vezes despeço-me dos bichos

com um dedo que não é mão)


quero dar um beijo a um átomo

sei que se amam quando se rodeiam

deitar-me com um planeta

contra todos os contractos

que me trouxeram a esta escala sem lugar


também tenho medo do escuro

por mim seguia na água

até ao lugar comum

esse espaço inocente

que se abre entre as sobrancelhas dos bichos

onde se come a energia exacta para comer

a boca não sabe a época


mas ouvimos o fundo dos poços

há uma exacta inclinação das variáveis

para lhes espreitar


e ela ri-se com

a rotação de todos os polegares

na inclinação exacta de nos amar


fibra óptica de Ícaro

I


ouvem-se menos as esquinas lá fora


os touros andam distraídos

em redondos dentro de redondos

galerias de pedra de redondos

(só um infinito podia deixar acabar-se assim em redondo)


de cornos sensíveis

a uma certa inclinação de sangue

alguns dançam e rodopiam pescoços

(a mais bela transição)


lançam corpos moles em hélice pelo ar

sabem que os reflexos nunca obedeceram

(a pedra redonda sempre foi um bom espelho

e um touro não pode ser deus)


fica sempre um gesto letra-borboleta

naquela pá-limpa-cesto pouco limpa de mãos

um dedo mindinho girado aleatoriamente

e escrevem-se infinitos de mãos dadas


II


ouvem-se menos as esquinas lá fora


touros sérios sentados em cadeiras olham-se de frente

sentem como certa a inclinação

o binário das esquinas das estrelas dos cabelos das caras moles

do encontro forçado das paredes


quando dois

catorze (infinitas) portas

abrem e piscam em fibra óptica

o céu é um emaranhado de fios de néon azul

(cada um a puxar a saia azul de uma princesa)


e os touros começam a desenhar danças inclinadas

(antigos avisos)

na pedra redonda


há sempre touros calmos a rir

de cornos azuis

a adormecer informação nos terraços

em relvas mornas de vulcões


III


ouvem-se menos as esquinas lá fora


(e se existem cornos e esquinas)

a informação queima as asas


só tambores debaixo de água

cheira a mar

e é impossível voar acima das fibras ópticas azuis

sem puxar à velocidade da luz

as saias de todas as princesas



em roda tribal (que nunca se soube escrever)

de sentido contrário à inclinação

pendurados por milhares de fibras

às grandes asas mecânicas

há touros centrífugos a acelerar


e mais alto que o ritmo das esquinas

ouve-se no seu canto:


a casa é um labirinto com uma certa inclinação para o mar